A mamãe troll

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Quem tem filhos pequenos no exílio sabe do que estou falando. Se de um lado a saudade da pátria, a distância da família e as barreiras linguísticas apresentem desafios imensos, de outro a possibilidade de se aventurar em uma outra cultura pelos olhos de uma criança pode ser uma experiência incrível.

E muitas vezes útil também. Crianças possuem uma resistência hercúlea a dormir. Mesmo com os olhinhos já pesados, elas resistem heroicamente a se entregar ao sono, exaurindo as últimas forças com que ainda conta o batalhão inimigo, no caso os pais, que depois de um dia pesado de trabalho só querem apressar a tarefa de ninar seus rebentos.

Ontem, já quase exaurido meu repertório de canções de ninar (com a exceção de “atirei o pau no gato”, porque tenho pena do pobre do bichano), deparei com uma belíssima canção de ninar nórdica, “A mamãe troll”, que a leitora poderá ouvir em vídeo no final deste post. A canção, como já indica o título, é prova de que fazer as crianças dormirem não é um desafio só de humanos. Talvez exija mesmo poderes sobrenaturais.

A canção conta a história de uma mamãe troll que, diante da dificuldade em pôr para dormir seus 11 filhinhos (pobre mamãe troll!), os amarra em seu rabo e decide cantar para eles uma música com as palavras mais bonitas que ela conheçe: “Hoajajajaj buff!”. Não, cara leitora, eu não compreendo a língua dos trolls e não sei o que significa isso, mas minha filha acha o som um barato. Vai entender. Melhor que Justin Bieber.

A canção faz parte da coletânea “Nu ska vi sjunga” (Agora a gente vai cantar), publicada em 1943, por iniciativa da compositora Alice Tégner (1864-1943), que foi pioneira em canções infantis na Suécia. Por ocasião de seu aniversário de 75 anos, Tégner estabeleceu um fundo, gerido pela Associação Sueca dos Professores, com o objetivo de incentivar o ensino de canções folclóricas na escola primária. A Associação conduziu uma ampla pesquisa nacional com as crianças, que enumeraram suas canções preferidas. O resultado foi publicado em um livro, que teve ilustrações de Elsa Beskow (1874-1953), uma das mais famosas autoras de histórias infantis na Suécia.

O folclore escandinavo é muito rico e bastante preservado. Isso se deve ao fato de que o cristianismo chegou relativamente tarde ao norte da Europa (por volta do século XII), e conviveu bem com a religião anterior, “asatro”, até a reforma protestante no século XVI. Com o romantismo, no século XIX, houve um grande interesse em se recuperar os antigos mitos e crenças nórdicas.

Os trolls, no caso específico, são seres da floresta, como o nosso curupira, por exemplo. Eles são muito feios e tem uma cauda longa. Adoram tudo o que reluz, e por isso guardam tesouros valiosíssimos. Reza a lenda que os trolls tinham o mau costume de trocar os seus bebês pelos dos humanos, o que somente poderia acontecer antes de as crianças serem batizadas.

Aqui a leitora poderá escutar a canção. Se ela não se provar útil na batalha pelo sono das suas crianças, pelo menos as fará rir com a estranhíssima língua da mamãe troll.

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