Dicas de Natal

É natal, cara leitora. Tempo de confraternizar com a família, de trocar alguns presentes e de saborear as especialidades da época. É tempo também de meditar sobre o significado mais profundo da efeméride, para não nos perdermos no caos da nossa era de superinformação.

Se a leitora aceita uma sugestão de presente de natal, indico o livro “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, de autoria do nosso Lobão, e que terminei de ler há pouco. Trata-se de uma verdadeira jóia de sociologia da cultura, que apresenta uma leitura bastante acurada da situação do Brasil atual. A obra está, sem sombra de dúvida, ao lado das grandes interpretações do Brasil, de Gilberto Freyre a Roberto DaMatta.

Lobão parte da tese central de que aquilo que se considera por “cultura brasileira” nada mais é do que a herança esquizofrênica do Modernismo, em especial do seu delírio mais alto, o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade. No Manifesto, Oswald propugna a “afirmação” (ou criação) da cultura brasileira pela condição mais abjeta na qual um ser humano pode ser jogado, o canibalismo. Daí deriva o orgulho brasileiro por tudo o que é viciado e defeituoso, o conhecido “achar bonito ser feio”. Deste ponto de partida, Lobão tece uma crítica a inúmeros círculos sociais, com ênfase na cultura musical, sua especialidade.

Na esfera política e econômica não há dúvida de que a Antropofagia fez longa escola. Ela é a origem do populismo varguista, do nacionalismo botocudo da esquerda e dos militares (não é mera semelhança, cara leitora), dos planos econômicos heterodoxos e da inflação tropicália, aquela que é hiperbólica. Até mesmo quando falam, os políticos do PT guardam tenebrosas semelhanças com o Gilberto Gil e com o texto do Manifesto. É paralelismo que não acaba mais.

O fundamental, contudo, é o desenvolvimento explícito, no Manifesto, de uma rejeição da cultura ocidental, manifesta em uma oposição rancorosa e infantil a tudo o que vem da Europa e dos Estados Unidos. Puro complexo de inferioridade. Cômico não fora trágico.

As sociedades ocidentais vivem uma profunda crise moral e ética justamente porque as pessoas perderam a fé nos valores herdados da tradição judaico-cristã, em favor de delírios de engenharia social como o fascismo, o socialismo e a antropofagia (que bebe nos dois). Se a leitora está interessada em se aprofundar mais sobre este tópico, segue minha segunda dica de natal, o livro do historiador Niall Ferguson, Civilization (disponível na Livraria Cultura, por R$ 54,90). Ali ele desenvolve os cinco elementos principais que emergiram da tradição judaico-cristã, e que, em conjunto, fizeram do Ocidente a civilização mais desenvolvida da história: o racionalismo, a propriedade privada, a medicina, o consumo e a ética do trabalho.

Se a tradição judaico-cristã precisa ser defendida, nenhum momento é mais propício do que o natal para se lembrar dos seus valores e da sua história, que estão também nos presentes, na comida e na valorização do convívio familiar. O sentido do natal está na dupla mensagem que o nascimento de Cristo trouxe ao mundo: que não devemos temer as intempéries da vida e que o caminho para a liberdade está sempre aberto em Deus.

Feliz natal, cara leitora.

Unknown

Por uma Fronda Empresarial Brasileira

Reproduzo, abaixo, artigo escrito em colaboração com o grande Paulo Roberto de Almeida, e publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 18 de dezembro de 2013. O link para o original segue no final do texto.

PAULO FERNANDO PINHEIRO MACHADO E PAULO ROBERTO DE ALMEIDA – O Estado de S.Paulo
As grandes transformações, para melhor, na vida política e econômica dos países que lograram alcançar altos patamares de prosperidade material e de bem-estar social sempre resultaram de revoltas das elites contra uma situação de opressão por parte de soberanos despóticos, que exageraram na extração da riqueza criada pelas classes produtoras: agricultores, industriais e simples trabalhadores. Assim foi a revolta dos barões ingleses da qual resultou a Magna Carta, limitando a criação de tributos sobre os súditos, o que foi confirmado pela Revolução Gloriosa de 1688; assim foi, também, com a revolução dos colonos da Nova Inglaterra contra os novos impostos criados pelo rei inglês. Episódios semelhantes ocorreram em diversas fases da vida política da França, como quando as elites, ou o “Terceiro Estado”, resolveram enfrentar o rei numa “fronda aristocrática”, por pretender ele arrancar parte da riqueza e do patrimônio de nobres e altos funcionários para financiar suas guerras; em situações mais agudas, o próprio povo tomou a frente dos levantes.

Todas essas revoltas convergiram para o estabelecimento de sistemas políticos responsáveis, criando aquilo que em inglês se chama accountability, a responsabilização dos dirigentes no tocante aos recursos provenientes da comunidade. O poder do Estado é limitado pela representação popular, havendo prestação de contas das receitas obtidas a partir das riquezas criadas pelas classes produtoras. Esse foi o caminho seguido – por meio de reformas pacíficas ou, eventualmente, em processos revolucionários, com algumas cabeças rolando junto – por todos aqueles países que, finalmente, se tornaram prósperos, com sistemas políticos estáveis e responsáveis perante a cidadania.

O que podemos dizer da situação das classes produtoras no Brasil atual? A vida de um empresário no País, hoje em dia, é uma verdadeira câmara de horrores. Primeiro, ele tem de arcar com o que possivelmente seja a carga tributária mais alta do mundo. Somados todos os tributos que recaem sobre a pessoa jurídica, a carga é, em média, de 68% sobre o rendimento, ante, por exemplo, 52% na Suécia, modelo de Estado de bem-estar. Esses números não refletem toda a realidade. No Brasil, ao contrário da Suécia, o empresário – como a população, de modo geral – tem ainda de comprar no mercado todos os serviços que o Estado, por incompetência, não consegue prover-lhe, como segurança, saúde, educação e transporte. Se essa cobrança duplicada for levada em conta, a carga tributária no Brasil atinge níveis criminais.

Além disso, o empresário opera num ambiente regulatório francamente hostil. Apenas com a burocracia fiscal o empresário brasileiro gasta 2.600 horas por ano, ante 175 horas nos países da OCDE e 380 na média da América Latina. Isso equivale a aproximadamente três meses e meio, 24 horas por dia. Ou seja, é impossível para o empresário lidar sozinho com isso, obrigando-o a ter contadores e advogados em tempo integral somente para lidar com o Fisco. Tente-se vislumbrar, então, o custo para cada um deles ao lidar com a burocracia estatal como um todo: na prática, incomensurável.

Como se tudo isso não bastasse, o empresário brasileiro encontra-se alijado das cadeias internacionais de comercialização, com acesso restrito à tecnologia e ao capital humano, que são as chaves para a inovação. A decadência do ensino no Brasil está levando a um sucateamento do setor privado, que só poderá ser revertido com investimento em educação e abertura ao exterior. Exatamente o oposto do caminho seguido pelo atual governo. País fechado é país condenado ao atraso absoluto e relativo nos circuitos cada vez mais integrados da produção global.

Todos os empresários, mesmo os que circunstancialmente se beneficiam de favores, subsídios ou proteção dados pelo Estado, sabem que o Brasil está gradualmente condenado à perda de competitividade internacional. O País já foi levado a uma situação de isolamento das cadeias produtivas mundiais e está sendo arrastado para longe do grupo de economias mais dinâmicas do mundo, com políticas macroeconômicas e setoriais que o levam de volta ao passado, em lugar de apontar para o futuro. Como nos exemplos históricos precedentes, perspectivas de melhoria só se concretizarão quando as classes produtoras se unirem no objetivo comum de conter a voracidade do Estado e de lutar por um regime político e um sistema de organização econômica que beneficiem realmente as classes produtoras, as únicas que criam as riquezas que vêm sendo dilapidadas pelo ogro famélico em que se converteu o Estado brasileiro.

Está na hora de o Brasil também ter a sua revolta dos “barões”, uma fronda empresarial que corrija os aspectos mais deletérios do atual modelo de desenvolvimento e crie um ambiente saudável para o crescimento econômico e a prosperidade de todos os cidadãos. Ninguém mais aceita ser um súdito espoliado por um Estado perdulário. Como sabem os próprios empresários, são eles mesmos que financiam o Estado e o atual sistema político, seja pela via direta dos impostos, seja pela via indireta, nem sempre transparente, das contribuições partidárias.

Que tal começar restringindo essa via àqueles comprometidos com a melhoria do ambiente de negócios? Que tal denegar aos estatizantes os recursos que eles buscam pela pressão pouco discreta ou até pela ameaça? Parafraseando um velho enunciado, os empresários não têm nada a perder, a não ser seus grilhões.

RESPECTIVAMENTE, SOCIÓLOGO, DIPLOMATA, AUTOR DO BLOG

‘NO BICO DA CHALEIRA’ (NOBICODACHALEIRA.WORDPRESS.COM);

E PROFESSOR, DIPLOMATA, AUTOR DE VÁRIOS LIVROS DE DIPLOMACIA ECONÔMICA E DE RELAÇÕES

ECONÔMICAS INTERNACIONAIS (WWW.PRALMEIDA.ORG)

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,por-uma-fronda–empresarial-brasileira-,1109902,0.htm

O Salão Vermelho

Como parte de meus estudos de sueco, estou lendo Röda Rummet (The Red Room, na tradução em inglês, disponível em e-book na Livraria Cultura por R$ 4,42), de August Strindberg. Trata-se de um clássico da literatura ocidental que muito vem me impressionando, entre outras coisas, pelas semelhanças que guarda com o Brasil atual.

August Strindberg (1849-1912) é o pai da literatura sueca moderna. Sua obra é vastíssima e, ao longo de quatro décadas, foi do realismo ao surrealismo, passando pelo naturalismo e pelo expressionismo. Strindberg, ao lado do norueguês (que escrevia em dinamarquês) Henrik Ibsen, é considerado um dos pais do teatro moderno.

Röda Rummet é, assim, o primeiro romance moderno da literatura sueca. Publicada em 1879, a novela, de caráter realista, faz um retrato da sociedade de Estocolmo da época. O enredo acompanha as experiências de Arvid Falk (alter-ego de Strindberg), um jovem idealista que, renegando a mediocridade burocrática, abandona um cargo público prestigioso e lança-se em uma carreira de escritor e jornalista. Em suas novas funções, Falk torna-se um observador atento de inúmeras atividades sociais, como os negócios, a política, as artes, etc, nas quais ele encontra apenas um caldo de hipocrisia, corrupção e infelicidade. Seu único alento está em um grupo de amigos boêmios, que se reúnem no Salão Vermelho do Hotel Berns (ainda hoje um dos melhores restaurantes da cidade), que dá título ao romance.

Chama à atenção o contraste moral entre a sociedade sueca atual e aquela descrita por Strindberg, que assume feições opostas mesmo à ética luterana, bastante presente na cultura escandinava. O grau de hipocrisia, mediocridade e corrupção (sim leitora, não é exclusividade nossa) só encontram paralelo nas repúblicas bananeiras que nós bem conhecemos. Na verdade, o romance poderia muito bem passar-se no Brasil companheiro atual.

É interessante mesmo comparar Röda Rummet com seu equivalente no Brasil, o Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, publicado em 1881. Em Brás Cubas, Machado descreve, em tom irônico e pessimista, uma sociedade em linhas gerais bastante próxima daquela pintada por Strindberg, mas que, em comparação com aquela que vivemos nos dias de hoje, mais parece um oásis de ingenuidade. Salta aos olhos, antes de mais nada, a nossa total perda de elegância e de dignidade. A conclusão óbvia, cara leitora, é que ao longo do século XX, a sociedade sueca melhorou e a brasileira se despedaçou.

A explicação mais rasteira, e preferida pela esquerda caviar, é a de que o Brasil é um país em desenvolvimento, pobre e muito desigual, ao passo em que a Suécia é um país rico, igualitário e que recebeu muita ajuda internacional após a Segunda Guerra. Não caia nessa, cara leitora. Trata-se de uma clássica falácia “non sequitur”, isto é, não há nenhuma correlação lógica entre pobreza e mau-caratismo, corrupção e bandidagem. O problema do Brasil é moral e cultural, não econômico. Pobre não é bandido.

A boa notícia é que as sociedades, assim como as pessoas, mudam. Para melhor ou para pior. 2014 está aí e é um ano decisivo para definirmos o rumo que o Brasil vai seguir. Espero que em 100 anos, as pessoas não olhem para o Brasil petralha como a gente olha para o Brasil de Machado: com saudade.

O Salão Vermelho. Imagem: Bengt Nyman

O Salão Vermelho.
Imagem: Bengt Nyman

Por um Choque de Educação no Brasil

A semana que passou não foi parcimoniosa em eventos e notícias aqui na Suécia. Uma nova pesquisa sobre intenções de voto para as eleições gerais de 2014 não apresentou grandes surpresas, isto é, a oposição melancia, “verde-vermelha”, continua à frente da Aliança liberal-conservadora; os documentos vazados por Snowden apontam que o governo sueco teria espionado os russos; e a tempestade “Sven” (um nome masculino comum, como “José” – na Dinamarca foi batizada de “Bodil”, um nome feminino comum…) deixou um rastro de destruição no sul do país e toneladas de neve por aqui, na região central.

Mas, apesar da massa de eventos, nenhum deles gerou mais polêmica do que os resultados do Pisa, um programa trianual da OCDE que testa as capacidades de alunos de 15 anos em matemática, leitura e ciências. O exame foi aplicado em 65 países e é considerado o principal termômetro internacional de comparação de desempenho dos setores educacionais. Vale à pena acessar o site do Pisa, que conta com uma ferramenta de cruzamento de dados muito interessante, que permite comparar os resultados de diferentes países. Seque o link: http://www.oecd.org/pisa/keyfindings/pisa-2012-results.htm

Com uma média de 478 pontos em matemática, a Suécia ficou com a 38ª posição. Foi a primeira vez em que o país ficou abaixo da média da OCDE, de 494 pontos, indicando uma piora constante de performance no exame. Mas não se engane cara leitora, o ensino sueco – e nórdico em geral – ainda é um dos melhores do mundo. A Suécia é um dos países que mais investe em educação (7% do PIB, o que representa US$ 11.700 por aluno) e tem uma das menores taxas de estudantes por professor do mundo. O resultado do exame, pelo menos no que concerne à Suécia, pode ser lido como indicativo de que o país precisaria atualizar seu currículo e seus métodos de gestão, para acompanhar o movimento contemporâneo, cuja tônica vem sendo dada pelos países asiáticos que encabeçaram a lista do exame.

O Governo sueco, atento para esta tendência, produziu uma ampla reforma no sistema em 2011, que incluiu, entre outras mudanças, um novo currículo, uma nova metodologia de avaliação dos alunos e um novo exame nacional. O Ministro da Educação, Jan Björklund, apontou, de maneira a meu ver acertada, que as mudanças introduzidas em 2011 ainda não surtiram efeito (os dados do presente Pisa foram colhidos em 2012), e que o governo já esperava um desempenho pouco positivo na avaliação.

Não obstante isso, o resultado do Pisa caiu como uma verdadeira bomba aqui na Suécia e muito provavelmente custará a reeleição da Aliança no ano que vem. A mídia e a população estão em polvorosa com o assunto. O Ministro da Educação, entretanto, em coletiva de imprensa, assumiu inteiramente a responsabilidade pelos resultados do exame.

Muito diferente do que aconteceu no Brasil. Em Pindorama, o Ministro da Educação, Aloizio Mercadante, reagiu de maneira intelectualmente obtusa e moralmente obscena aos resultados do Pisa. O Brasil foi um dos lanternas da avaliação. Com 391 pontos em matemática, o país amargou a 57ª posição, entre 65 países. O país, contudo, foi o que mais evoluiu neste quesito, desde 2003 (ano da primeira aplicação do exame), quando fez 356 pontos. Isso mesmo, cara leitora, o Brasil foi do nada a coisa alguma.

Mercadante, com olhos na eleição do ano que vem, saudou os resultados: “a nossa fotografia ainda não é boa e não temos que nos acomodar com isso. Porém, o nosso filme é muito bom. Quando olhamos o filme, somos o primeiro da sala”, disse. Teria sido melhor se tivesse ficado quieto. O Brasil é um dos países que menos investe em educação (US$ 2778 por aluno no ensino primário) e um dos que tem o maior número de estudantes por professor, apesar de ser a 6ª maior economia do mundo (a Suécia é a 21ª). É triste cara leitora, porque a situação da educação no Brasil é um problema de gestão e não de recursos. Atitudes ufanistas e eleitoreiras como a do Ministro, que buscam tapar o sol com a peneira, não ajudam em nada. Na verdade, estão na raiz mesmo do problema.

Na condição de Ministro da Educação e a menos de um ano das eleições presidenciais, Mercadante faria melhor se lançasse o debate acerca do que o país realmente precisa na área: um choque de educação. Este é o principal tema para o país e deveria estar no topo da agenda eleitoral. Um choque de educação, que produza uma revolução no setor, deve girar em torno de 5 eixos principais:

– Valorização do professor: a valorização do professor passa por uma remuneração decente e por um plano de carreira que privilegie o mérito. Pela importância de seu papel social, os professores deveriam ter seus salários equiparados aos de vereadores, deputados estaduais ou federais, dependendo do ente federativo que os emprega;

– Infra-estrutura decente: adoção de um padrão nacional para as escolas, que contemple plano arquitetônico, instalações físicas, equipamento de informática e segurança;

– Envolvimento comunitário: os pais, os alunos e os professores deverão formar conselhos, para acompanhamento e avaliação das atividades da escola;

– Grade curricular: deve ser reformada com foco no desenvolvimento individual, com o intuito de preparar os alunos para a cidadania e para o mercado de trabalho, e não simplesmente para o vestibular;

– Igualdade e liberdade de escolha: deve ser adotado o método de “vouchers” escolares, pelos quais o governo subsidia cada aluno, que pode escolher livremente a escola em que quer se matricular. Esse sistema é o único que, ao mesmo tempo em que estimula a concorrência entre as instituições de ensino, realmente promove a igualdade entre os alunos, porque não os separa entre ricos e pobres. É o único sistema que pode diminuir o fosso social do Brasil.

Em suma, cara leitora, lanço aqui uma proposta de choque de educação para o Brasil. Cobre de seus candidatos um posicionamento acerca dos 5 eixos acima. Se eles evitarem o debate, ou se vangloriarem do atual estado da educação em nosso país, não vote neles. Procure quem, como você, é sério e não admite que a 6ª economia do mundo possa ter uma educação de última categoria. Se fosse de primeira, com certeza o ministro seria outro.

Por um Choque de Educação.

Por um Choque de Educação.

O extremismo na Escandinávia e o PT

O historiador Eric Hobsbawm, em seu “A Era dos Extremos” (1994), fez uma preocupante, mas acertada, previsão sobre o século XXI. Para ele, o mundo do terceiro milênio certamente continuará a ser marcado pela violência na prática e nas transformações políticas. “A única coisa incerta é o lugar para onde elas vão nos levar”, vaticinou.

Quase 20 anos mais tarde, somos testemunhas de uma época marcada pela violência, na qual os extremismos vêm apresentando crescimento constante, desde os 1990, impulsionados agora pela crise financeira global. Parece que entramos em uma máquina do tempo, que nos projetou de volta ao período do Entre-Guerras.

O crescimento exponencial do extremismo, tanto de esquerda quanto de direita, é um fenômeno global. Repare a leitora que eles não são opostos, mas sim fruto de uma mesma visão de mundo totalitária, na qual o indivíduo é mero instrumento para a glória do Estado e da Nação. A eles opõem-se os liberais, que põem o foco no indivíduo como ser autônomo e no valor da dignidade intrínseca a cada a ser humano. O Estado deve servir ao indivíduo e não o oposto.

No Brasil o extremismo cresce a olhos vistos. Black blocs, MST, crime organizado, etc. As conexões políticas são conhecidas, e o ambiente é o de uma guerra civil. Mas não é tão fácil ligar os pontos, no caso brasileiro, não só porque, em nossa cultura, as posições ideológicas são mais tênues e tendem a borrar-se em colorações amalgamadas, mas também pelas características do próprio sistema presidencialista. O sistema presidencial força o bipartidarismo, sufocando as correntes políticas em dois grandes grupos, assumindo assim feições maniqueístas. Me parece um sistema fadado ao fracasso em mundo pluralista e em constante transformação.

Na Escandinávia, marcada por sistemas parlamentaristas, o jogo é mais claro e estimula o multipartidarismo, com as principais correntes político-ideológicas encontrando alguma forma de voz no Parlamento. Neste post pretendo apresentar uma visão geral do extremismo na Escandinávia, que acredito ser útil para que a leitora possa comparar com a situação no Brasil e ver que o nosso país não é um caso isolado. Espero que a ajude a separar o joio do trigo.

O fato mais marcante quando se analisa o extremismo político aqui, e no Norte da Europa em geral, é o seu recrudescimento constante a partir de meados dos anos 1990. Em geral herdeiros de partidos de protesto, na direita, ou do velho comunismo, na esquerda, as agremiações extremistas procuraram adotar uma feição mais palatável para o eleitorado de centro, relegando as atividades de contestação pela violência para entidades pára-políticas e/ou criminais, sem conexão formal com os partidos. Os partidos extremistas têm uma cara bonita e recusam conexão explícita com a bandidagem.

A tática dos partidos de orientação democrática vem sendo o de isolar as agremiações extremistas no jogo parlamentar. Esses partidos teriam, assim, representação no parlamento, mas não influência política, dado que os outros partidos se recusavam a negociar com eles. Esperava-se que não chegassem a formar um governo, em coalizão com outras agremiações. Como a leitora pode perceber, a não ser que o extremismo fosse fogo de palha, trata-se de um caso clássico de tática sem estratégia.

O primeiro país onde esta tática ruiu foi na Dinamarca. O Partido Popular dinamarquês (DF, na sigla local), cuja principal bandeira é o controle migratório, serviu de base de sustentação de um gabinete de minoria, formado em coalizão entre o Partido Liberal e o Partido Conservador, entre 2001 e 2011. O preço para a consolidação da maioria parlamentar foi a entrega do controle da política de imigração para o DF. Hoje, a Dinamarca é um dos países mais fechados para a imigração do mundo. Nas eleições de 2011, o DF fez 12,3% dos votos, consolidando-se como a terceira maior agremiação do país, atrás apenas dos partidos Liberal e Social-Democrata. O resultado apresenta um crescimento considerável dos 7,4% feitos em 1998.

Em 2011, o governo liberal-conservador da Dinamarca deu lugar à uma coalizão de centro-esquerda, entre o Partido Social-Democrata, o Partido Popular Socialista e o Partido Radical, na qual a agremiação de extrema-esquerda Lista Unitária (E, na sigla em dinamarquês), desempenha papel semelhante ao DF no governo anterior. A E fez 6,7% dos votos, em 2011. Somados aos votos do DF, vê-se que 19% dos eleitores dinamarqueses votaram em partidos extremistas.

O segundo país nórdico em que a tática de isolamento parlamentar ruiu foi na Noruega. As eleições do outono deste ano levaram a formação de um governo de coalizão entre o Partido da Conservador e o Partido Progressista, este uma agremiação de orientação populista e nacionalista. O partido é atualmente o terceiro maior da Noruega, com 16,3%, uma queda em relação às eleições de 2005 e 2009, quando o partido fez 22,1% e 22,9%, respectivamente, e se consolidava como o segundo maior partido do país. O apoio à agremiação recrudesceu muito depois dos atentados de Utøya em 2011, dado que o perpetrador, Anders Breivik tinha ligações com o partido, sendo membro oficial até 2007. Desnecessário dizer que a formação de um governo com o Partido Progressista vem gerando muita controvérsia na região. Especula-se, também, que o partido tenha ligações com o grupo neonazista “Amanhecer Dourado”.

A tática de isolamento parlamentar, por outro lado, segue surtindo efeitos na Suécia. O Partido Democrada Sueco (SD, na sigla local), de extrema-direita nacionalista, fez 5,7% dos votos nas eleições de 2010, e vem sendo isolado tanto pelo governo liberal-conservador de Frederik Reinfeldt, como pela oposição verde-vermelha. Esta, por sua vez, é mais aberta a colaborar com o Partido da Esquerda, com raízes no extinto Partido Comunista. A questão é por quanto tempo a tática de isolamento ainda vai funcionar por aqui, já que haverá eleições no ano que vem, e as pesquisas vêm apontado um crescimento do SD da ordem de 16% das intenções de voto, que, em se verificando na realidade, alçará o partido à condição de terceira agremiação política na Suécia.

Neste final de semana, o SD realizou o seu último congresso anual antes das eleições do ano que vem. Na ocasião, o líder do partido, Jimmy Åkesson, portou-se como um estadista e apresentou seu partido como a única agremiação verdadeiramente de oposição na Suécia. A linha do partido é, principalmente, de uma política mais rígida de imigração e de ceticismo com relação à União Européia. Åkesson vem tentando levar o partido um pouco mais para o centro do espectro político, através de uma política de tolerância zero contra membros que cometam ofensas de cunho racista ou homofóbico, o que não é incomum.

No mesmo final de semana que o SD realizava seu congresso, o Partido Sueco, organização neonazista sem representação no Parlamento, vandalizou cerca de 40 prefeituras e redações de jornais, sob a justificativa que eles faziam “propaganda contra os suecos”. Acredita-se que a agremiação mantenha ligações com o SD. Nos mesmos dias, a polícia encontrou armas ilegais com membros do Fronte Revolucionário, organização de extra-esquerda, que defende atos de vandalismo, ao estilo black bloc. Os membros do fronte disseram à polícia que precisam se proteger contra agressões da extrema-direita.

Diante deste quadro, a leitora poderá concluir que a questão do extremismo político, da violência e do vandalismo, ademais de complexa, é global. A maneira de enfrentar o extremismo e a violência é, conforme disse o então Primeiro Ministro norueguês, Jens Stoltenberg, por ocasião dos atentados de Utøya: “mais democracia e mais transparência”.

Por isso é importante que a leitora saiba diferenciar quem é quem no jogo político brasileiro e dê o seu voto em 2014 para aqueles que realmente defendem a democracia, a transparência o funcionamento impessoal das instituições. Desnecessário dizer que esta não é a agenda do Partido dos Trabalhadores.

- Em política, quem vê cara não vê coração.

– Em política, quem vê cara não vê coração.

A transparência da sueca

Com o outono sueco a pleno vapor e as temperaturas despencando para zonas negativas não se vê mais muita transparência pelas ruas de Estocolmo. Salvo em algumas moçoilas aparentemente insensíveis ao frio, ávidas por mostrar atributos outros que não os intelectuais. Dói como dor de dente.

Faça calor ou faça frio, entretanto, há outro tipo de transparência que nunca abandona estas plagas nórdicas. Refiro-me à transparência pública, tanto individual quanto governamental.

Em tempos de wikileaks e google glass muito tem se discutido sobre transparência no Brasil, porém de uma maneira demasiado reducionista, restrita, no mais das vezes, ao mero acesso a documentos públicos. Estaria tudo resolvido com a Lei de Acesso à Informação, que para fazer valer parece que só mesmo com acesso ao Judiciário, o que esvazia o espírito da norma. Tudo para inglês ver.

Aqui na Escandinávia, o conceito de transparência é mais amplo. Ele se refere à visibilidade do processo de tomada de decisões políticas, que se dão em um jogo de negociações no qual as cartas são conhecidas e pré-definidas. As cartas no jogo parlamentar nórdico são as opiniões dos atores políticos (indivíduos, organizações, partidos e governo) sobre os temas que estão na agenda do momento.

O sistema funciona de maneira muito clara e em um nível escalonado. É mais ou menos assim: os políticos apresentam, antes de mais nada, suas opiniões pessoais sobre temas muito específicos, por exemplo a extensão do período de licença-paternidade. Depois, eles têm de negociar a posição de sua corrente partidária, cujo resultado pode ser diferente da posição individual do político. As posições das diversas correntes, por sua vez, são chamadas a formar a posição do partido, que se consolida nos seus congressos anuais. Consolidadas as posições partidárias (que podem ser muito diferentes da posição individual, e inicial, do político) passa-se para o jogo parlamentar. Ali, é comum a formação de dois blocos, de oposição e de situação. Cada qual tem de definir uma posição entre si (repare que já estamos em uma quarta posição, que não necessariamente se confunde com as três anteriores), para negociar propostas legislativas concretas no Parlamento.

Todo esse processo é acompanhado minuciosamente pela mídia e pelo eleitorado. Ou seja, todas os quatro níveis de posições e seus respectivos processos de formulação são transparentes e conhecidos. Se um político fica em cima do muro, ou apóia algo diametralmente oposto à sua biografia (alô Kátia Abreu!) ele perde credibilidade, e a resposta das urnas é duríssima. Aliás, a credibilidade dos políticos aqui é medida frequentemente nas pesquisas de opinião (Alô Datafolha!).

É essa a transparência que tem de ser cobrada de nossos políticos e partidos nas eleições de 2014. Qual a posição de PMDB, PSDB, PP e DEM sobre o salário dos professores, por exemplo? E mais: quais as posições de Aécio Neves, Marina Silva, Eduardo Campos e Dilma sobre a produtividade da indústria, ou sobre as prisões do mensalão? Político sem opinião é político sem credibilidade. Não merece o nosso voto. Queremos ver a transparência de nossos políticos em 2014. Talvez doa mais que dor de dente.

A sueca mostra (quase) tudo.

A sueca mostra (quase) tudo.

Herdeiro da Pampa Pobre

No último domingo foi dia dos país aqui na Suécia. Foi o meu primeiro na condição de pai. Comemoramos a data na capela local, onde a predicante, Johanna Keck, ostentando um divertido crucifixo de lego amarelo, celebrou uma missa interativa entre pais e filhos. Ao final, confraternizamos ao sabor de salsichas suecas, sob uma fina garoa de outono. Pelo cenário, bem poderia ter sido em Porto Alegre. Ou em Curitiba. Ou em Montevidéu.

 

A tônica do serviço foi na alegria de se encontrar o caminho de volta à Deus e no valor inerente a cada ser humano, como indivíduo em si. O sermão me fez lembrar de quando eu era criança e no Brasil daqueles tempos. Inevitavelmente comparei com o país que temos hoje e me senti um pouco como naquela música do gaúcho da fronteira: herdeiro de uma pampa pobre. O Brasil que vou deixar para minha filha é tão diferente daquele em que eu cresci, que às vezes não me reconheço mais nele.

 

O Brasil que eu conheci era um país com inúmeros problemas, mas onde as pessoas eram de uma gentileza infinita. Mesmo na pobreza a gente era de uma elegância e de uma dignidade ímpares, de fazer corar de inveja muito aristocrata europeu. Era o Brasil de Machado de Assis, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, dos Trapalhões. Era o Brasil do Tom Jobim e do malandro de sapatos brancos. Era um país com uma imensa esperança no futuro, com sede de liberdade e de ser parte do mundo moderno, da civilização ocidental. Não tinha como não se apaixonar por ele.

 

Esse Brasil infelizmente não existe mais. O Brasil de hoje é um país que se brutaliza a cada dia. Um país onde as liberdades individuais são sufocadas paulatinamente por um Estado agigantado e superburocratizado, a serviço da causa de um partido. Onde o indivíduo é minuciosamente controlado por uma teia de regulamentos, sem mais função que a de realizar o delírio stalinista de um grupo inebriado com o pequeno poder. É um país onde até o humor adquiriu um tom metálico, e as pessoas que antes a gente admirava passam agora por uma sombria transformação. De defensores da liberdade a defensores de censura, de delinquentes e de ditadores patéticos. O meu Brasil não é o Brasil da Paula Lavigne, do Black Bloc e do Lula.

 

E tampouco é este país que eu quero deixar para a minha filha. Estamos herdando, sim, uma pampa pobre. Mas junto com ela vem uma história – individual, familiar e coletiva -, que encerra os valores que nos definem e que temos de semear para que as próximas gerações herdem uma pampa mais rica. E esses valores são os valores da Civilização Ocidental: a liberdade individual, a família e a tradição judaico-cristã.

 

Há momentos em temos de assumir a responsabilidade pelo nosso futuro e pelo futuro do nosso país. É disso que trata este blog: da defesa dos valores que conformam a Civilização Ocidental contra toda a tentativa de desumanizá-la, seja por meio da burocracia, do autoritarismo ou do mensalão.

 

Se você acredita, como eu, que o Brasil pode voltar a ser um país livre e digno, onde a gente tenha vontade de viver e criar os nossos filhos, espero que você encontre aqui um espaço de diálogo e intercâmbio de idéias. A gente tem muito para conversar.