Dicas de Natal

É natal, cara leitora. Tempo de confraternizar com a família, de trocar alguns presentes e de saborear as especialidades da época. É tempo também de meditar sobre o significado mais profundo da efeméride, para não nos perdermos no caos da nossa era de superinformação.

Se a leitora aceita uma sugestão de presente de natal, indico o livro “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, de autoria do nosso Lobão, e que terminei de ler há pouco. Trata-se de uma verdadeira jóia de sociologia da cultura, que apresenta uma leitura bastante acurada da situação do Brasil atual. A obra está, sem sombra de dúvida, ao lado das grandes interpretações do Brasil, de Gilberto Freyre a Roberto DaMatta.

Lobão parte da tese central de que aquilo que se considera por “cultura brasileira” nada mais é do que a herança esquizofrênica do Modernismo, em especial do seu delírio mais alto, o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade. No Manifesto, Oswald propugna a “afirmação” (ou criação) da cultura brasileira pela condição mais abjeta na qual um ser humano pode ser jogado, o canibalismo. Daí deriva o orgulho brasileiro por tudo o que é viciado e defeituoso, o conhecido “achar bonito ser feio”. Deste ponto de partida, Lobão tece uma crítica a inúmeros círculos sociais, com ênfase na cultura musical, sua especialidade.

Na esfera política e econômica não há dúvida de que a Antropofagia fez longa escola. Ela é a origem do populismo varguista, do nacionalismo botocudo da esquerda e dos militares (não é mera semelhança, cara leitora), dos planos econômicos heterodoxos e da inflação tropicália, aquela que é hiperbólica. Até mesmo quando falam, os políticos do PT guardam tenebrosas semelhanças com o Gilberto Gil e com o texto do Manifesto. É paralelismo que não acaba mais.

O fundamental, contudo, é o desenvolvimento explícito, no Manifesto, de uma rejeição da cultura ocidental, manifesta em uma oposição rancorosa e infantil a tudo o que vem da Europa e dos Estados Unidos. Puro complexo de inferioridade. Cômico não fora trágico.

As sociedades ocidentais vivem uma profunda crise moral e ética justamente porque as pessoas perderam a fé nos valores herdados da tradição judaico-cristã, em favor de delírios de engenharia social como o fascismo, o socialismo e a antropofagia (que bebe nos dois). Se a leitora está interessada em se aprofundar mais sobre este tópico, segue minha segunda dica de natal, o livro do historiador Niall Ferguson, Civilization (disponível na Livraria Cultura, por R$ 54,90). Ali ele desenvolve os cinco elementos principais que emergiram da tradição judaico-cristã, e que, em conjunto, fizeram do Ocidente a civilização mais desenvolvida da história: o racionalismo, a propriedade privada, a medicina, o consumo e a ética do trabalho.

Se a tradição judaico-cristã precisa ser defendida, nenhum momento é mais propício do que o natal para se lembrar dos seus valores e da sua história, que estão também nos presentes, na comida e na valorização do convívio familiar. O sentido do natal está na dupla mensagem que o nascimento de Cristo trouxe ao mundo: que não devemos temer as intempéries da vida e que o caminho para a liberdade está sempre aberto em Deus.

Feliz natal, cara leitora.

Unknown

Herdeiro da Pampa Pobre

No último domingo foi dia dos país aqui na Suécia. Foi o meu primeiro na condição de pai. Comemoramos a data na capela local, onde a predicante, Johanna Keck, ostentando um divertido crucifixo de lego amarelo, celebrou uma missa interativa entre pais e filhos. Ao final, confraternizamos ao sabor de salsichas suecas, sob uma fina garoa de outono. Pelo cenário, bem poderia ter sido em Porto Alegre. Ou em Curitiba. Ou em Montevidéu.

 

A tônica do serviço foi na alegria de se encontrar o caminho de volta à Deus e no valor inerente a cada ser humano, como indivíduo em si. O sermão me fez lembrar de quando eu era criança e no Brasil daqueles tempos. Inevitavelmente comparei com o país que temos hoje e me senti um pouco como naquela música do gaúcho da fronteira: herdeiro de uma pampa pobre. O Brasil que vou deixar para minha filha é tão diferente daquele em que eu cresci, que às vezes não me reconheço mais nele.

 

O Brasil que eu conheci era um país com inúmeros problemas, mas onde as pessoas eram de uma gentileza infinita. Mesmo na pobreza a gente era de uma elegância e de uma dignidade ímpares, de fazer corar de inveja muito aristocrata europeu. Era o Brasil de Machado de Assis, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, dos Trapalhões. Era o Brasil do Tom Jobim e do malandro de sapatos brancos. Era um país com uma imensa esperança no futuro, com sede de liberdade e de ser parte do mundo moderno, da civilização ocidental. Não tinha como não se apaixonar por ele.

 

Esse Brasil infelizmente não existe mais. O Brasil de hoje é um país que se brutaliza a cada dia. Um país onde as liberdades individuais são sufocadas paulatinamente por um Estado agigantado e superburocratizado, a serviço da causa de um partido. Onde o indivíduo é minuciosamente controlado por uma teia de regulamentos, sem mais função que a de realizar o delírio stalinista de um grupo inebriado com o pequeno poder. É um país onde até o humor adquiriu um tom metálico, e as pessoas que antes a gente admirava passam agora por uma sombria transformação. De defensores da liberdade a defensores de censura, de delinquentes e de ditadores patéticos. O meu Brasil não é o Brasil da Paula Lavigne, do Black Bloc e do Lula.

 

E tampouco é este país que eu quero deixar para a minha filha. Estamos herdando, sim, uma pampa pobre. Mas junto com ela vem uma história – individual, familiar e coletiva -, que encerra os valores que nos definem e que temos de semear para que as próximas gerações herdem uma pampa mais rica. E esses valores são os valores da Civilização Ocidental: a liberdade individual, a família e a tradição judaico-cristã.

 

Há momentos em temos de assumir a responsabilidade pelo nosso futuro e pelo futuro do nosso país. É disso que trata este blog: da defesa dos valores que conformam a Civilização Ocidental contra toda a tentativa de desumanizá-la, seja por meio da burocracia, do autoritarismo ou do mensalão.

 

Se você acredita, como eu, que o Brasil pode voltar a ser um país livre e digno, onde a gente tenha vontade de viver e criar os nossos filhos, espero que você encontre aqui um espaço de diálogo e intercâmbio de idéias. A gente tem muito para conversar.