Por um Choque de Educação no Brasil

A semana que passou não foi parcimoniosa em eventos e notícias aqui na Suécia. Uma nova pesquisa sobre intenções de voto para as eleições gerais de 2014 não apresentou grandes surpresas, isto é, a oposição melancia, “verde-vermelha”, continua à frente da Aliança liberal-conservadora; os documentos vazados por Snowden apontam que o governo sueco teria espionado os russos; e a tempestade “Sven” (um nome masculino comum, como “José” – na Dinamarca foi batizada de “Bodil”, um nome feminino comum…) deixou um rastro de destruição no sul do país e toneladas de neve por aqui, na região central.

Mas, apesar da massa de eventos, nenhum deles gerou mais polêmica do que os resultados do Pisa, um programa trianual da OCDE que testa as capacidades de alunos de 15 anos em matemática, leitura e ciências. O exame foi aplicado em 65 países e é considerado o principal termômetro internacional de comparação de desempenho dos setores educacionais. Vale à pena acessar o site do Pisa, que conta com uma ferramenta de cruzamento de dados muito interessante, que permite comparar os resultados de diferentes países. Seque o link: http://www.oecd.org/pisa/keyfindings/pisa-2012-results.htm

Com uma média de 478 pontos em matemática, a Suécia ficou com a 38ª posição. Foi a primeira vez em que o país ficou abaixo da média da OCDE, de 494 pontos, indicando uma piora constante de performance no exame. Mas não se engane cara leitora, o ensino sueco – e nórdico em geral – ainda é um dos melhores do mundo. A Suécia é um dos países que mais investe em educação (7% do PIB, o que representa US$ 11.700 por aluno) e tem uma das menores taxas de estudantes por professor do mundo. O resultado do exame, pelo menos no que concerne à Suécia, pode ser lido como indicativo de que o país precisaria atualizar seu currículo e seus métodos de gestão, para acompanhar o movimento contemporâneo, cuja tônica vem sendo dada pelos países asiáticos que encabeçaram a lista do exame.

O Governo sueco, atento para esta tendência, produziu uma ampla reforma no sistema em 2011, que incluiu, entre outras mudanças, um novo currículo, uma nova metodologia de avaliação dos alunos e um novo exame nacional. O Ministro da Educação, Jan Björklund, apontou, de maneira a meu ver acertada, que as mudanças introduzidas em 2011 ainda não surtiram efeito (os dados do presente Pisa foram colhidos em 2012), e que o governo já esperava um desempenho pouco positivo na avaliação.

Não obstante isso, o resultado do Pisa caiu como uma verdadeira bomba aqui na Suécia e muito provavelmente custará a reeleição da Aliança no ano que vem. A mídia e a população estão em polvorosa com o assunto. O Ministro da Educação, entretanto, em coletiva de imprensa, assumiu inteiramente a responsabilidade pelos resultados do exame.

Muito diferente do que aconteceu no Brasil. Em Pindorama, o Ministro da Educação, Aloizio Mercadante, reagiu de maneira intelectualmente obtusa e moralmente obscena aos resultados do Pisa. O Brasil foi um dos lanternas da avaliação. Com 391 pontos em matemática, o país amargou a 57ª posição, entre 65 países. O país, contudo, foi o que mais evoluiu neste quesito, desde 2003 (ano da primeira aplicação do exame), quando fez 356 pontos. Isso mesmo, cara leitora, o Brasil foi do nada a coisa alguma.

Mercadante, com olhos na eleição do ano que vem, saudou os resultados: “a nossa fotografia ainda não é boa e não temos que nos acomodar com isso. Porém, o nosso filme é muito bom. Quando olhamos o filme, somos o primeiro da sala”, disse. Teria sido melhor se tivesse ficado quieto. O Brasil é um dos países que menos investe em educação (US$ 2778 por aluno no ensino primário) e um dos que tem o maior número de estudantes por professor, apesar de ser a 6ª maior economia do mundo (a Suécia é a 21ª). É triste cara leitora, porque a situação da educação no Brasil é um problema de gestão e não de recursos. Atitudes ufanistas e eleitoreiras como a do Ministro, que buscam tapar o sol com a peneira, não ajudam em nada. Na verdade, estão na raiz mesmo do problema.

Na condição de Ministro da Educação e a menos de um ano das eleições presidenciais, Mercadante faria melhor se lançasse o debate acerca do que o país realmente precisa na área: um choque de educação. Este é o principal tema para o país e deveria estar no topo da agenda eleitoral. Um choque de educação, que produza uma revolução no setor, deve girar em torno de 5 eixos principais:

– Valorização do professor: a valorização do professor passa por uma remuneração decente e por um plano de carreira que privilegie o mérito. Pela importância de seu papel social, os professores deveriam ter seus salários equiparados aos de vereadores, deputados estaduais ou federais, dependendo do ente federativo que os emprega;

– Infra-estrutura decente: adoção de um padrão nacional para as escolas, que contemple plano arquitetônico, instalações físicas, equipamento de informática e segurança;

– Envolvimento comunitário: os pais, os alunos e os professores deverão formar conselhos, para acompanhamento e avaliação das atividades da escola;

– Grade curricular: deve ser reformada com foco no desenvolvimento individual, com o intuito de preparar os alunos para a cidadania e para o mercado de trabalho, e não simplesmente para o vestibular;

– Igualdade e liberdade de escolha: deve ser adotado o método de “vouchers” escolares, pelos quais o governo subsidia cada aluno, que pode escolher livremente a escola em que quer se matricular. Esse sistema é o único que, ao mesmo tempo em que estimula a concorrência entre as instituições de ensino, realmente promove a igualdade entre os alunos, porque não os separa entre ricos e pobres. É o único sistema que pode diminuir o fosso social do Brasil.

Em suma, cara leitora, lanço aqui uma proposta de choque de educação para o Brasil. Cobre de seus candidatos um posicionamento acerca dos 5 eixos acima. Se eles evitarem o debate, ou se vangloriarem do atual estado da educação em nosso país, não vote neles. Procure quem, como você, é sério e não admite que a 6ª economia do mundo possa ter uma educação de última categoria. Se fosse de primeira, com certeza o ministro seria outro.

Por um Choque de Educação.

Por um Choque de Educação.

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O liberal sueco

Jan Björklund é um cara gente-fina. Além de boa praça, ele é também Vice-Primeiro-Ministro, Ministro da Educação, Líder do Partido Liberal e pai de família. Não necessariamente nessa mesma ordem.

Este final de semana foi pesado para Jan. Entre sexta e domingo foi realizado a convenção anual do seu partido, a última antes das eleições gerais de 2014. Sim, os suecos também vão às urnas no ano que vêm.

Jan tem muito trabalho pela frente. A “Aliança”, que junta o partido liberal, o moderado, o do centro e os democratas-cristãos, governa a Suécia deste 2006 e está apanhando nas pesquisas para a oposição melancia,”verde-vermelha”, que junta o partido social-democrata, o verde, e o da esquerda (comunista). Jan precisa defender o legado histórico de seu partido para um eleitorado ávido por mudanças. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Conforme o Rodrigo Constantino afirmou em seu artigo “O Vale das Quimeras” (http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/historia/o-vale-das-quimeras/), é consenso aqui na Suécia que o alto nível de desenvolvimento econômico e social de que goza hoje o país é fruto das reformas liberais dos anos 1990 e 2000, e não do paternalismo social-democrata, que jogou o país na maior crise financeira da sua história.

No início dos anos 1990, o déficit público sueco havia explodido, fruto da expansão dos gastos do governo intensificada a partir dos anos 1960. Uma crise bancária aliada a um ataque especulativo contra a coroa sueca espalhava pânico no outono de 1992, ao ponto de o governo se ver forçado a elevar as taxas de juros a 500% para estancar a fuga de capitais do país. “O céu é o limite”, disse o então Presidente do Banco Central sueco, Bengt Dennis, em uma conferência de imprensa.

Em novembro do mesmo ano, o governo conservador de Carl Bildt (atual Ministro dos Assuntos Estrangeiros) iniciou uma série de reformas liberalizantes, baseadas no tripé saneador da economia: câmbio flutuante, metas de inflação e responsabilidade fiscal. Novas medidas de liberalização do mercado de trabalho, redução da carga tributária e privatização seguiram-se nas décadas seguintes, o que imunizou a Suécia, de certa forma, contra a atual crise financeira.

As reformas liberais tinham como foco aumentar a autonomia do indivíduo. Hoje o cidadão sueco pode escolher livremente os seus médicos e a escola dos seus filhos, via o sistema de vouchers, o que não podia fazer nos anos 1970 (o sistema era estritamente vinculado à área de residência da pessoa, sem possibilidade de escolha).

O Partido Liberal sueco é agremiação com mais credibilidade perante o eleitorado em assuntos relativos à educação, igualdade de gênero e defesa. E por quê? Justamente porque o foco dos liberais está no indivíduo e na sua condição cotidiana.

Jan vai comandar um partido preparado para defender o seu legado, dentro da “Aliança”, precisamente nessas três áreas nas eleições de 2014. Os liberais querem um salário mais alto para os professores, menos impostos e mais igualdade no mercado de trabalho (via aumento da licença-paternidade, e não quotas para mulheres).

Para a leitora interessada em mais detalhes sobre a plataforma do Partido Liberal sueco, sugiro a leitura do discurso de Jan Björklund no congresso deste final de semana (http://www.folkpartiet.se/jan-bjorklund/tal/tal-av-jan-bjorklund-vid-folkpartiets-landsmote-i-vasteras-den-14-nov-2013/). O texto é em sueco, mas o google translator deve dar conta do recado.

Por fim, um testemunho pessoal sobre Jan. Na primavera deste ano, quando ia ao Brasil, dividimos o mesmo vôo até Frankfurt. Jan, acompanhado da esposa Anette e dos filhos Jesper e Gustav, veio logo atrás de mim na fila de embarque (única e longuíssima). Sentaram todos, algumas poltronas atrás de mim, na classe econômica. Quem dera 10% dos políticos brasileiros fossem como o liberal sueco: simples, humano e sério. Gente fina de verdade.

O futuro começa na sala de aula.

O futuro começa na sala de aula.